11.7.06

A Obra Nunca Está Concluída

“Considera-se, muitas vezes, a obra de um criador como uma seqüência de testemunhos isolados. Confunde-se então artista e literato. Um pensamento profundo está em perpétua formação, esgota a experiência de uma vida e nela se modela. Do mesmo modo, a criação única de um homem fortifica-se nos seus rostos sucessivos e múltiplos, que são as obras. Umas completam as outras, corrigem-nas ou alcançam-nas, contradizem-nas também. Se alguma coisa termina a criação, não é o grito vitorioso e ilusório do artista, ofuscado, mas a morte do criador que fecha a sua experiência e o livro do seu gênio.”

Albert Camus, 'O Mito de Sísifo'



A Ambição da Eternidade


“Fazer... A memória dos deuses, agora que se nos desfez como forma de um refúgio, de uma justificação, reinventa em nós o sonho do seu poder: criar é afirmar no homem o sonho de divinização. Criar um império, uma obra de arte, um filho, um arranjo de saber, um novo apara-lápis... E à ambição de impor ao mundo uma nova ordem, ao desejo angustiado de nos furtarmos a um domínio universal, de nos afirmarmos únicos, nós juntamos a pequena ambição de sermos eternos.”

Vergílio Ferreira, 'Carta ao Futuro'



Processo Criativo


A função do desenho no processo criativo é a da representação de algo que lhe é exterior. Referimo-nos à acepção do termo representação como re-presentação, ou seja, a repetição da apresentação de um algo que o desenho se esforça por mostrar.
O outro lado da moeda que instaura esse papel meramente figurativo do desenho é o do emprego de processos idealizantes como ferramenta para a produção daquele algo que o desenho representa. Estando as coisas assim dispostas, a idealização (ou seja, a produção na mente, a arregimentação de idéias, de coisas etéreas) é a ferramenta utilizada na criação enquanto o desenho é a ferramenta destinada à representação do resultado obtido pelo trabalho mental. Assim, a criação teria sido produzida fora do desenho. Este traduziria a idéia tal como se ele fosse uma ferramenta transparente, susceptível de traduzir qualquer idéia, sem que sua participação no processo interferisse no produto final, por um lado, e tal como se ela, a idéia, fosse a musa personificada que não quer macular-se na travessia.
O processo criativo é tabula rasa, aceito por todos tal como é, integrante de uma ideologia que se crê universal, evidente (como, de resto, todas as ideologias), e, portanto, isenta da crítica, uma vez entronizada como estrutura universal e transparente de um processo. Não problematizar o tema significa legitimar seu atual estágio de desenvolvimento.
A partir desse tal estado de coisas uma pergunta pode ser feita: pode caber ao desenho alguma outra função no processo criativo, que não apenas a de representação?
O professor John Habraken, escritor do livro “The control of complexity” responderia que sim. O desenho pode ser mais que representação de idéia. Segundo Habraken, não haveria necessidade do exercício do desenho se o projetista já soubesse, de antemão, o resultado do processo criativo. Esse desenho de que ele fala já não é representação de uma coisa outra, mas construção da própria coisa a ser projetada. Através do exercício do desenho pode-se chegar a uma forma que não foi concebida antes de ser desenhada, ou ainda que não nasceu num ambiente onde a idealização dita as regras. A forma pode, então, surpreender ao seu criador.
Pode-se incorporar idéias como parte do processo, e isso não constitui problema. As idéias podem estar no início dos trabalhos, ou surgir em algum lugar entre o início e o fim ou, ainda, várias idéias podem povoar o trabalho em vários momentos. O problema surge quando essas idéias tomam e, assim, entravam o processo criativo, impedindo-o de fazer de si e do projeto processos em evolução, matérias sobre as quais se trabalha. O desenho vai possibilitar o próximo passo, ou seja, próximo desenho, uma vez que saímos do universo das idéias e passamos a operar no universo das coisas. A evolução do conjunto de desenhos, quer sejam garatujas, croquis, esboços, perspectivas ou projeções ortogonais, permite à criação ser considerada como matéria distendida no tempo. O processo criativo será um processo, e não fruto de instantes inspirados (a não ser que se faça, desses instantes processuais, instantes inspirados). Então se pode dizer que o projeto surge na ponta do lápis, entre minha idéia, minha intenção, e a seqüência de desenhos que produzo. O projeto, coisa que surge após um dado período de cozimento, será autônomo em sua novidade. E o desenho será uma etapa na construção da coisa-edifício.
Desta pergunta segue-se que o projetista poderá ter a chance de utilizar o desenho como ferramenta em todo o processo criativo. Ele estará continuamente aprendendo a desenhar e, no mesmo gesto, aprendendo e apreendendo a forma de seu projeto e, mais ainda, aprendendo a distender no tempo seu processo criativo, cuja evolução ele poderá, se tiver interesse, ter a chance de promover continuamente, por toda a sua carreira profissional.

Texto original: http://www.vitruvius.com.br/drops/drops12_08.asp

O Que é a Inspiração?


Eu não sei o que é a inspiração. Mas também a verdade é que às vezes nós usamos conceitos que nunca paramos a examinar. Vamos lá a ver: imaginemos que eu estou a pensar determinado tema e vou andando, no desenvolvimento do raciocínio sobre esse tema, até chegar a uma certa conclusão. Isto pode ser descrito, posso descrever os diversos passos desse trajeto, mas também pode acontecer que a razão, em certos momentos, avance por saltos; ela pode, sem deixar de ser razão, avançar tão rapidamente que eu não me aperceba disso, ou só me aperceba quando ela tiver chegado ao ponto em que, em circunstâncias diferentes, só chegaria depois de ter passado por todas essas fases.
Talvez, no fundo, isso seja inspiração, porque há algo que aparece subitamente; talvez isso possa chamar-se também intuição, qualquer coisa que não passa pelos pontos de apoio, que saltou de uma margem do rio para a outra, sem passar pelas pedrinhas que estão no meio e que ligam uma à outra. Que uma coisa a que nós chamamos razão funcione desta maneira ou daquela, que funcione com mais velocidade ou que funcione de forma mais lenta e que eu posso acompanhar o próprio processo, não deixa de ser um processo mental a que chamamos razão.
José Saramago, 'Diálogos com José Saramago'

Teoria da Gestalt

Wertheimer (1945) apud Kneller (1978) afirma que o pensamento criador é uma reconstrução de gestalts estruturalmente deficientes. A criação tem seu início com uma configuração problemática, que, de certa forma, se mostra incompleta, porém permite ao criador uma visão sistêmica da situação. A partir das dinâmicas, das forças e das tensões do próprio problema, são estabelecidas linhas de tensão semelhantes na mente do criador. Para “fechar” a gestalt, deve-se restaurar a harmonia do todo. Nas palavras do próprio Wertheimer, “o processo todo é uma linha consciente de pensamento. Não é uma adição de operações díspares, agregadas. Nenhum passo é arbitrário, de função conhecida. Pelo contrário, cada um deles é dado com visão de toda a situação.
A teoria da gestalt não explica como surge a configuração inicial, mesmo que problemática, a partir da qual o criador começa a desenvolver seu trabalho. É, portanto, incapaz de explicar a capacidade de fazer perguntas originais, não sugeridas diretamente pelos fatos a sua disposição. Entretanto, para resolver a gestalt, é necessária uma reorganização do campo perceptual, o que sugere a relação existente entre percepção e pensamento.

Associacionismo

As raízes do associacionismo remontam a John Locke, no século XIX. Parte do princípio de que:
"O pensamento consiste em associar idéias, derivadas da experiência, segundo as leis da freqüência, da recencia e da vivacidade. Quanto mais freqüentemente, recentemente e vividamente relacionadas duas idéias, mais provável se torna que, ao apresentar-se uma delas à mente, a outra a acompanhe.”

Essa abordagem diz que, para se criar o novo, se parte do velho, em um processo de tentativa e erro, por meio da combinação de idéias até que seja encontrado um arranjo que resolva a situação. Há algumas críticas contundentes a essa teoria, como coloca Kneller:

“Dificilmente, entretanto, o associacionismo se adapta aos fatos conhecidos da criatividade. Pensamento novo significa que se retiraram do contexto idéias anteriores e se combinaram elas para formar pensamento original. Tal pensamento ignora conexões estabelecidas e cria as suas próprias. Não seria fácil atribuir as idéias de uma criação criativa a conexões entre idéias derivadas de experiência pregressa, uma vez numa criança relativamente incriativa experiências semelhantes podem deixar de produzir uma única idéia original. Na verdade, seria de esperar que a confiança nas associações passadas produzisse, em lugar de originalidade, respostas comuns e previsíveis.”

1.7.06

O Verdadeiro Criador Não Exige Recompensa do Exterior

"...Por isso, meu caro senhor, apenas me é possível dar-lhe este conselho: mergulhe em si próprio e sonde as profundidades onde a sua vida brota; na sua fonte encontrará a resposta à pergunta «Devo criar?» Aceite essa resposta, tal como lhe é dada, sem tentar interpretá-la. Talvez chegue à conclusão de que a arte o chama. Nesse caso, aceite o seu destino e tome-o, com o seu peso e a sua grandeza, sem jamais exigir uma recompensa que possa vir do exterior. Porque o criador deve ser todo um universo para si próprio, tudo encontrar em si próprio e na Natureza à qual toda a sua vida é devotada." Rainer Maria Rilke, 'Cartas a um Jovem Poeta'

"Reconhecimento é questão de sorte. É questão das pessoas gostarem das coisas que você está gostando de fazer. Se existir esta alquimia, tudo certo. Caso contrário, o reconhecimento não se dá. Mas no fundo, o essencial é a gente gostar das coisas que faz." (Roberto Torero)



21.6.06

Criatividade como Força Vital


Reflexo da teoria da evolução de Darwin, a criatividade foi considerada como manifestação de uma força inerente à vida. Assim, a matéria inanimada não é criadora, uma vez que sempre produziu as mesmas entidades, como átomos e estrelas, enquanto a matéria orgânica é fundamentalmente criadora, pois está sempre gerando novas espécies. Um dos principais expoentes dessa idéia é Sinnott (1962), quando afirma que a vida é criativa porque se organiza e regula a si mesma e porque está continuamente originando novidades.

6.6.06

Criatividade como Genialidade


Esta explicação deve suas origens à noção do gênio, surgida no fim do Renascimento, para explicar a capacidade criativa de Da Vinci, Vasari, Telésio e Michelângelo. Durante o século XVIII, muitos pensadores associaram criatividade e genialidade. Kant apud Kneller “entendeu ser a criatividade um processo natural, que criava as suas próprias regras; também sustentou que uma obra de criação obedece a leis próprias, imprevisíveis; e daí concluiu que a criatividade não pode ser ensinada formalmente”. Além de gênio, essa teoria identifica a criação como uma forma saudável e altamente desenvolvida da intuição, tornando o criador uma pessoa rara e diferente. É a capacidade de intuir direta e naturalmente o que outras pessoas só podem apurar divagando longamente que caracteriza essa teoria.

2.6.06

O que é razão?


Você já parou para pensar o que é que separa a razão da loucura? A razão é natural nos homens ou foi construída pela civilização? O que fazer com tudo aquilo que não podemos chamar de racional?

Dona Estamira viveu do lixo por mais de 20 anos, num aterro sanitário no Rio de Janeiro. E é diagnosticada pela medicina como esquizofrênica.

“Eu sou perturbada, mas eu sei distinguir a perturbação”, diz ela.
Luís Léo é engenheiro de obras em São Paulo. Seu trabalho é organizar, coordenar, construir.

“Seguir uma meta, seguir um procedimento, seguir um planejamento”, relata.

Luís e Dona Estamira: dois pontos opostos da nossa cultura - loucura e razão. Mas o que é "razão"?

Costumamos chamar de razão a capacidade que todo ser humano tem de criar e articular palavras e pensamentos. Por isso, dizemos que o homem é um animal racional, que fala, pensa, tem idéias.

Chamamos também de razão um modelo de pensamento, tipicamente ocidental, que nasceu entre os gregos e se tornou o orientador da conduta humana no mundo.

Razão não quer dizer somente pensar, mas pensar de forma organizada, esclarecida, contida. Sem contradições, nem grandes emoções.

Foi com Sócrates e Platão que este modelo de pensamento nasceu, na Grécia Antiga. Um modelo presente até hoje. A racionalidade é uma exigência da nossa civilização.

“Sem a razão, não seria possível ter feito esse cálculo do edifício, sem a razão era impossível você planejar a obra, sem a razão não é possível que você garanta a eficácia dos trabalhadores, não é possível que você consiga um resultado final de qualidade, com segurança, essa qualidade da edificação”, diz Luís.

Sócrates e Platão acreditavam que o corpo, as sensações, as emoções, são a fonte dos erros, da violência e da desordem. Para eles, o homem precisa se opor à sensibilidade, percepções e apetites do corpo, e buscar a essência das coisas, a verdade que vem dos pensamentos e idéias.

As opiniões e ilusões, as crenças religiosas e, principalmente. as contradições devem ser rejeitadas. Portanto, a razão não é natural nos homens, como se acredita. Ao contrário, foi construída pela cultura e é um produto da nossa civilização.

“Ela era conhecida como a bruxa do lixo”, diz o documentarista Marcos Prado, referindo-se a Dona Estamira. “Ela comandava uma comunidade de velhinhos renegados da sociedade, que dormiam lá, moravam lá”.

A trajetória de Estamira, mostrada no documentário de Marcos Prado, traz questões importantes para a filosofia: será que a razão consegue mesmo guiar o homem?

O que a sociedade fez, ao longo da história, com aqueles que não conseguiam controlar as contradições, os afetos, as paixões?

Para que o pensamento racional pudesse se manter como modelo de discurso, o homem procurou afastar todos que atentassem contra ele - os que deliram, se excedem, se desequilibram.

Quando a razão se tornou o ideal de interpretação do mundo, a ausência de razão, a loucura, passou a ser o que devemos excluir, banir da sociedade.

O que o discurso racionalista quer eliminar não é somente a loucura, mas tudo o que seja estranho, desconhecido, obscuro, diferente, representado na figura do louco.

No entanto, grande parte dos homens que construíram nossa cultura - cientistas, artistas, pensadores - foram considerados loucos.

Será que um certo grau de loucura não é uma condição para criar?


“Uma coisa me ajudou a recorrer a uma coisa que a gente pode chamar de loucura. É que eu sou péssimo compositor, péssimo instrumentista, péssimo cantor. Eu tive que partir para o que não é normal. Quando você parte para o que não é normal, muitas pessoas já chamam isso de loucura. ‘Ah, esse cara é louco’, eu ouvi isso várias vezes”, afirma o compositor Tom Zé.

Tom Zé foi a principal atração do Festival da Loucura, que aconteceu há dois meses, em Barbacena, Minas Gerais.

A idéia do festival era celebrar a loucura como fonte de criação e apagar a triste fama da cidade.

Aqui há um hospício, conhecido em todo o país, que chegou a ter mais de três mil internos.

“As pessoas não têm nem idéia do que é sofrer de um problema mental. Eu mesmo sou beneficiado pela farmacologia”, confessa Tom Zé.

Será que ao excluir a loucura, nossa razão não estaria se tornando também mais fraca? Menos criativa? Mais triste?

“Eu amo é dar às pessoas o prazer de descobrir que eu fiz um pequeno segredinho numa coisa chamada canção, onde na verdade tem só o invólucro de uma coisa que eu chamo ‘rebeldia’. E a rebeldia é uma forma de loucura”, comenta Tom Zé. “E um dia, esse tipo de loucura foi aceito como música”.

Reportagem exibida pelo Fantástico

28 de maio de 2006

16.5.06

Criatividade como Loucura

Também creditada à Antigüidade, esta explicação concebe a criatividade como forma de loucura, dada a sua aparente espontaneidade e sua irracionalidade. Platão, novamente, parece haver visto pouca diferença entre a visitação divina e o frenesi da loucura. Durante o século XIX, Lombroso (1891) alegou que a natureza irracional ou involuntária da arte criadora deve ser explicada patologicamente.
Muitas pessoas que, nos dias atuais, são julgadas como loucas, recebem essa determinação por terem pensamentos muito distintos dos demais indivíduos e por agirem de maneira espontânea e irracional. Isso será uma prova de que o conceito de “Criatividade como Loucura” ainda é aceito?

15.5.06

Criatividade como Inspiração Divina

Segundo Hallman (1964) apud Kneller (1978), uma das mais velhas concepções da criatividade é a sua origem divina. A melhor expressão dessa crença é creditada a Platão:

“E por essa razão Deus arrebata o espírito desses homens (poetas) e usa-os como seus ministros, da mesma forma que com os adivinhos e videntes, a fim de que os que os ouvem saibam que não são eles que proferem as palavras de tanto valor quando se encontram fora de si, mas que é o próprio Deus que fala e se dirige por meio deles.”


Essa concepção ainda encontra defesa, por exemplo, em Maritain (1953): o poder criativo depende do “reconhecimento da existência de um inconsciente, ou melhor, pré-consciente espiritual, de que davam conta Platão e os sábios, e cujo abandono em favor do inconsciente freudiano apenas é sinal da estupidez de nosso tempo”.

Escrito por Bruno Carvalho