A função do desenho no processo criativo é a da representação de algo que lhe é exterior. Referimo-nos à acepção do termo representação como re-presentação, ou seja, a repetição da apresentação de um algo que o desenho se esforça por mostrar.
O outro lado da moeda que instaura esse papel meramente figurativo do desenho é o do emprego de processos idealizantes como ferramenta para a produção daquele algo que o desenho representa. Estando as coisas assim dispostas, a idealização (ou seja, a produção na mente, a arregimentação de idéias, de coisas etéreas) é a ferramenta utilizada na criação enquanto o desenho é a ferramenta destinada à representação do resultado obtido pelo trabalho mental. Assim, a criação teria sido produzida fora do desenho. Este traduziria a idéia tal como se ele fosse uma ferramenta transparente, susceptível de traduzir qualquer idéia, sem que sua participação no processo interferisse no produto final, por um lado, e tal como se ela, a idéia, fosse a musa personificada que não quer macular-se na travessia.
O processo criativo é tabula rasa, aceito por todos tal como é, integrante de uma ideologia que se crê universal, evidente (como, de resto, todas as ideologias), e, portanto, isenta da crítica, uma vez entronizada como estrutura universal e transparente de um processo. Não problematizar o tema significa legitimar seu atual estágio de desenvolvimento.
A partir desse tal estado de coisas uma pergunta pode ser feita: pode caber ao desenho alguma outra função no processo criativo, que não apenas a de representação?
O professor John Habraken, escritor do livro “The control of complexity” responderia que sim. O desenho pode ser mais que representação de idéia. Segundo Habraken, não haveria necessidade do exercício do desenho se o projetista já soubesse, de antemão, o resultado do processo criativo. Esse desenho de que ele fala já não é representação de uma coisa outra, mas construção da própria coisa a ser projetada. Através do exercício do desenho pode-se chegar a uma forma que não foi concebida antes de ser desenhada, ou ainda que não nasceu num ambiente onde a idealização dita as regras. A forma pode, então, surpreender ao seu criador.
Pode-se incorporar idéias como parte do processo, e isso não constitui problema. As idéias podem estar no início dos trabalhos, ou surgir em algum lugar entre o início e o fim ou, ainda, várias idéias podem povoar o trabalho em vários momentos. O problema surge quando essas idéias tomam e, assim, entravam o processo criativo, impedindo-o de fazer de si e do projeto processos em evolução, matérias sobre as quais se trabalha. O desenho vai possibilitar o próximo passo, ou seja, próximo desenho, uma vez que saímos do universo das idéias e passamos a operar no universo das coisas. A evolução do conjunto de desenhos, quer sejam garatujas, croquis, esboços, perspectivas ou projeções ortogonais, permite à criação ser considerada como matéria distendida no tempo. O processo criativo será um processo, e não fruto de instantes inspirados (a não ser que se faça, desses instantes processuais, instantes inspirados). Então se pode dizer que o projeto surge na ponta do lápis, entre minha idéia, minha intenção, e a seqüência de desenhos que produzo. O projeto, coisa que surge após um dado período de cozimento, será autônomo em sua novidade. E o desenho será uma etapa na construção da coisa-edifício.
Desta pergunta segue-se que o projetista poderá ter a chance de utilizar o desenho como ferramenta em todo o processo criativo. Ele estará continuamente aprendendo a desenhar e, no mesmo gesto, aprendendo e apreendendo a forma de seu projeto e, mais ainda, aprendendo a distender no tempo seu processo criativo, cuja evolução ele poderá, se tiver interesse, ter a chance de promover continuamente, por toda a sua carreira profissional.
Texto original: http://www.vitruvius.com.br/drops/drops12_08.asp