2.6.06

O que é razão?


Você já parou para pensar o que é que separa a razão da loucura? A razão é natural nos homens ou foi construída pela civilização? O que fazer com tudo aquilo que não podemos chamar de racional?

Dona Estamira viveu do lixo por mais de 20 anos, num aterro sanitário no Rio de Janeiro. E é diagnosticada pela medicina como esquizofrênica.

“Eu sou perturbada, mas eu sei distinguir a perturbação”, diz ela.
Luís Léo é engenheiro de obras em São Paulo. Seu trabalho é organizar, coordenar, construir.

“Seguir uma meta, seguir um procedimento, seguir um planejamento”, relata.

Luís e Dona Estamira: dois pontos opostos da nossa cultura - loucura e razão. Mas o que é "razão"?

Costumamos chamar de razão a capacidade que todo ser humano tem de criar e articular palavras e pensamentos. Por isso, dizemos que o homem é um animal racional, que fala, pensa, tem idéias.

Chamamos também de razão um modelo de pensamento, tipicamente ocidental, que nasceu entre os gregos e se tornou o orientador da conduta humana no mundo.

Razão não quer dizer somente pensar, mas pensar de forma organizada, esclarecida, contida. Sem contradições, nem grandes emoções.

Foi com Sócrates e Platão que este modelo de pensamento nasceu, na Grécia Antiga. Um modelo presente até hoje. A racionalidade é uma exigência da nossa civilização.

“Sem a razão, não seria possível ter feito esse cálculo do edifício, sem a razão era impossível você planejar a obra, sem a razão não é possível que você garanta a eficácia dos trabalhadores, não é possível que você consiga um resultado final de qualidade, com segurança, essa qualidade da edificação”, diz Luís.

Sócrates e Platão acreditavam que o corpo, as sensações, as emoções, são a fonte dos erros, da violência e da desordem. Para eles, o homem precisa se opor à sensibilidade, percepções e apetites do corpo, e buscar a essência das coisas, a verdade que vem dos pensamentos e idéias.

As opiniões e ilusões, as crenças religiosas e, principalmente. as contradições devem ser rejeitadas. Portanto, a razão não é natural nos homens, como se acredita. Ao contrário, foi construída pela cultura e é um produto da nossa civilização.

“Ela era conhecida como a bruxa do lixo”, diz o documentarista Marcos Prado, referindo-se a Dona Estamira. “Ela comandava uma comunidade de velhinhos renegados da sociedade, que dormiam lá, moravam lá”.

A trajetória de Estamira, mostrada no documentário de Marcos Prado, traz questões importantes para a filosofia: será que a razão consegue mesmo guiar o homem?

O que a sociedade fez, ao longo da história, com aqueles que não conseguiam controlar as contradições, os afetos, as paixões?

Para que o pensamento racional pudesse se manter como modelo de discurso, o homem procurou afastar todos que atentassem contra ele - os que deliram, se excedem, se desequilibram.

Quando a razão se tornou o ideal de interpretação do mundo, a ausência de razão, a loucura, passou a ser o que devemos excluir, banir da sociedade.

O que o discurso racionalista quer eliminar não é somente a loucura, mas tudo o que seja estranho, desconhecido, obscuro, diferente, representado na figura do louco.

No entanto, grande parte dos homens que construíram nossa cultura - cientistas, artistas, pensadores - foram considerados loucos.

Será que um certo grau de loucura não é uma condição para criar?


“Uma coisa me ajudou a recorrer a uma coisa que a gente pode chamar de loucura. É que eu sou péssimo compositor, péssimo instrumentista, péssimo cantor. Eu tive que partir para o que não é normal. Quando você parte para o que não é normal, muitas pessoas já chamam isso de loucura. ‘Ah, esse cara é louco’, eu ouvi isso várias vezes”, afirma o compositor Tom Zé.

Tom Zé foi a principal atração do Festival da Loucura, que aconteceu há dois meses, em Barbacena, Minas Gerais.

A idéia do festival era celebrar a loucura como fonte de criação e apagar a triste fama da cidade.

Aqui há um hospício, conhecido em todo o país, que chegou a ter mais de três mil internos.

“As pessoas não têm nem idéia do que é sofrer de um problema mental. Eu mesmo sou beneficiado pela farmacologia”, confessa Tom Zé.

Será que ao excluir a loucura, nossa razão não estaria se tornando também mais fraca? Menos criativa? Mais triste?

“Eu amo é dar às pessoas o prazer de descobrir que eu fiz um pequeno segredinho numa coisa chamada canção, onde na verdade tem só o invólucro de uma coisa que eu chamo ‘rebeldia’. E a rebeldia é uma forma de loucura”, comenta Tom Zé. “E um dia, esse tipo de loucura foi aceito como música”.

Reportagem exibida pelo Fantástico

28 de maio de 2006

1 Comments:

Blogger Julia Pedreira said...

é pra se pensar, mas acho q essa idéia de "resgatar o q a loucura tem de bom" é algo inútil, talvez redefinir o a "loucura" seja a melhor opção para convivermos com ela.

11:33 PM  

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home